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Edson: a face de quem venceu uma guerra

A história de vida do ex-combatente de Lagoa Dourada que esteve presente na Segunda Guerra Mundial e venceu as forças de Hitler.

“A cobra vai fumar!” Foi com esse slogan que mais de 25 mil combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) seguiram até a Itália para combater o nazi-facismo e os países do Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. Dentre eles, estava o jovem civil de Lagoa Dourada, Edson Souza Campos, que, hoje, é o único na cidade capaz de testemunhar as experiências da Segundo Guerra Mundial, que teve início em 1939.
Hoje, com 96 anos, o ex-combatente Campos conta que tinha apenas 21 anos quando foi convocado para o confronto. Trabalhava na lavoura, nas terras da família, próxima ao povoado da Ressaca, em Lagoa Dourada. Na época do conflito, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo (que pretendia disseminar regimes ditatoriais pelo mundo), a convocação aconteceu por sorteio e Campos foi um dos escolhidos para ser enviado à Europa. Naquela época, todos os homens com idade para servir as Forças Armadas eram obrigados a se alistar, mas apenas os sorteados eram convocados.
Entre a saída do país da neutralidade e o embarque dos convocados, passaram-se dois anos. Durante esse período, Campos treinou com o 11º Batalhão de Infantaria de Montanha, em São João del-Rei e, logo após, foi enviado para a Vila Militar no Rio de Janeiro, de onde partiu para a Itália, em julho de 1944. Ao longo desse trajeto, o pracinha (termo utilizado para nomear os ex-combatentes brasileiros que lutaram na Segunda Guerra)  iniciou um diário que descrevia suas experiências até a volta para casa. Sobre o dia da viagem, o relato trazia o medo de quem não sabia pelo que podia esperar: “felizmente a noite corria bem graças a Deus. Ao despontar da manhã, subia ao convés pensando na minha vida. Está presa a um fio de linha”.
Assim que chegaram em Nápoles, na Itália, eles ficaram subordinados ao Quinto Exército Americano (A5), com o qual treinaram por dois meses antes de entrar em combate. Esse contato foi essencial para o desenvolvimento dos combatentes brasileiros. “O Brasil era muito atrasado, não tinha nada. Nós fomos para a Itália e, se a gente não tivesse acampado com os americanos, não voltava um para contar o caso. O navio nem chegava”, confessa o pracinha lagoense.
Segundo Campos, o treinamento dos americanos era o mesmo realizado no Brasil e incluía o manuseio de armas de fogo, marchas e resistência. “Lá eu fiz um curso de detecção e retiradas de minas. A gente usava um aparelho para achar as minas, desarmava com um grampinho e sinalizava o local para a tropa poder passar”, conta. O pracinha avançava para o meio do fogo cruzado para desativar as bombas terrestres e assim poder abrir passagem para que seu pelotão avançasse.
Em terras européias, a FEB alcançou vitórias importantes, que ajudaram a definir os rumos da guerra. Dentre as principais batalhas que Campos participou, estão as famosas conquistas de Monte Castello e Montese. “Em Monte Castello, me lembro que os alemães se escondiam no subterrâneo e o bombardeio não funcionava. Por isso, nós cercamos a região, sitiamos por três meses os nazistas e impedimos que eles entrassem ou saíssem. Depois se renderam e aprisionamos mais de 20 mil inimigos. Em Montese entramos com arma de fogo e fizemos a tomada”, relata.
Apesar das vitórias heróicas, as principais lembranças de Campos envolvem os momentos de perda. Em um episódio, o “General Zenóbio da Costa mandava as tropas avançarem, mesmo com muita gente morrendo. Morriam muitos e mesmo assim continuamos avançando. Andávamos sobre muita gente morta. Somente quando os americanos chegaram que eles nos mandaram recuar. Foi quando mais participei”, conta.
Em um outro momento, o pracinha recorda que um de seus amigos, Geraldo Baeta, de Entre Rios de Minas, cidade vizinha de Lagoa Dourada, avançou sozinho até as trincheiras inimigas. “Ele deixou os companheiros e foi até o outro lado, onde estavam os alemães. Morreu com um tiro na testa. Eu mesmo vi ele lá, com um buraco na cabeça.”
Além desses relatos, no diário consta o dia que representaria o fim de tanta luta e dor: “Dia primeiro de setembro do corrente ano (1945), foi anunciado pelo boletim da companhia que a tropa Aliada já tinha tomado posse de diversos terrenos alemães e também de algumas cidades. Logo depois de dois dias passados deu boletim que os nossos inimigos já estavam completamente cercados”. Com o fim da guerra e a volta ao país de origem, Campos trabalhou nas metalúrgicas de São Paulo, até retornar para Lagoa Dourada, onde construiu uma família com esposa, filho e netas. O primeiro auxílio governamental, destinado aos soldados que defenderam o país no combate, só chegou em 1995.
Se tivesse a oportunidade de voltar no tempo, o pracinha não hesitaria em se esquivar dos grandes fatos da História. A Segunda Grande Guerra marcou sua vida, mas ele preferiria nunca tê-la vivido. “Guerra não é boa coisa. Se você não quiser morrer, você tem que matar. Não é nada fácil”, desabafa o ex-combatente.
Noédson Pereira Campos, 60, único filho do pracinha, relata que as experiências vividas por seu pai na Europa estiveram sempre presentes nas conversas da família. Eles guardam muitas fotos e medalhas, participam de eventos das Forças Armadas e durante muito tempo mantiveram contato com outros ex-combatentes da região.
Orgulhoso dos feitos do pai, Noédson exalta o fato de combatentes brasileiros terem saído do interior, enfrentado adversidades que não imaginavam e voltado para casa como vencedores. “Eles são heróis. Estavam despreparados, com poucos recursos, enfrentaram o exército mais poderoso daquela época e ainda assim saíram vitoriosos.”
Em contraponto, o pracinha não compartilha da mesma opinião do filho. “As pessoas acham que nós somos heróis… mas não somos nada não”, conclui o ex-combatente

O Brasil na Guerra
O Brasil manteve-se neutro durante o início da Segunda Guerra Mundial, como forma de aproveitar as vantagens comerciais oferecidas pelas potências dos dois lados do conflito. No entanto, sob a pressão do governo norte-americano, o governo brasileiro acertou a concessão de bases na região Nordeste do país – exigida pelos Estados Unidos sob ameaça de invasão daquela região.
Ao receber as bases Aliadas, o comando alemão desconsidera a neutralidade do país e passa a torpedear navios mercantes brasileiros. A pressão popular, após esses episódios, obriga o então presidente Getúlio Vargas a declarar guerra ao Eixo, em 1942, de acordo com os dados disponíveis no Museu da Força Expedicionária Brasileira (FEB), em São João del-Rei. Entre a declaração e o envio das tropas, passaram-se dois anos de treinamentos e burocracias. Para o Coronel do 11º Batalhão de Infantaria de Montanha (11º BIM) da mesma cidade, Andrelúcio Ricardo Couto, essa participação provocou mudanças incontestáveis no exército brasileiro. “A importância para as Forças Armadas foram destacadas na mudança de doutrina – antes francesa para a norte-americana – bem como na modernização de equipamentos e da experiência acumulada, sendo, até hoje, uma das Forças Armadas mais fortes no contexto latino-americano”, ressalta.
Segundo informações do Museu da FEB, ao total foram enviados mais de 25 mil homens para a Itália. Destes, cerca de 1700 estavam sob o comando do 11º BIM de São João del-Rei. Durante 239 dias de ação enfrentados pelos pracinhas brasileiros, a força expedicionária sofreu quase 500 baixas, sendo 132 do 11º BIM.
– Por Ana Carolina Gomes e João Victor Militani
*Esta é a versão estendida da matéria divulgada pelo Jornal Laboratório Ora Pro Nobis, edição 23 da Universidade Federal de São João del-Rei

One thought on “Edson: a face de quem venceu uma guerra

  1. Excelente matéria sobre um pedaço importante da história do Brasil. E dá para verificar que embora se tente criar uma imagem heroica da participação do país na guerra, o próprio entrevistado do não endossa isso.

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